segunda-feira, 20 de julho de 2009

RH - Claro que ia acontecer comigo também. PARTE 2

Pessoal,

Assim estive todos estes dias ausentes. Lutando pelo Talento e pelo meu emprego. Para mim, virou questão de honra. Não é somente o gesto de ajudar uma pessoa, mas meus princípios estavam em jogo. Me ajudaram uma vez, eu também teria que repetir o feito. Um talento muda a face de um negócio - algo que eu também tenho como lei, eu teri,a então, que ajudá-lo.

Expliquei toda a situação para Beltrano logo que ele terminou os ritos iniciais do RH. Fui muito direto. Ele ficou sabendo o que eu havia arriscado - fato falado no post PARTE 1 - no que estavamos envolvidos e que teriamos que prover ações rápidas. Senti que ele ficou muito empolgado com o meu gesto e, de certa forma, com medo. Tranquilizei-o. Eu estaria lá com ele, não deixaria ele se queimar.

O Talento é algo realmente interessante de se ver. Tem pessoas cujo talento aflora com a inteligência, outras com o trabalho árduo de horas, outras com o mix dos dois. Ele é o mix. Oscila entre os dois extremos. Para mostrar esta capacidade dele, precisava de um projeto, cujo o tempo de entrega ele conseguisse reduzir sobremaneira, com o resultado acima da média. Eu tinha um projeto de melhoria na área, passei pra ele e fiquei supervisionando.

O projeto engana em sua complexidade. A priori, parece ser bastante simples, mas pode tomar uma dimensão incrível, precisando de certo controle na concepção.

A melhoria é muito simples: reduzir a frota de caminhões, matendo o mesmo nível de serviço. Pela minha experiência, poderiamos reduzir até 10% da frota, o problema era saber como. Este projeto para alguém comum demoraria coisa de 45 dias para ser feito. Eu demoraria uns 15 dias para fazer, meu diretor também faria em igual período. Beltrano precisaria fazer mais rápido.

Beltrano caiu em campo. Entrava as 7hs e saía as 21hs. E eu acompanhando. (Não vou pormenorizar a solução que ele encontrou, até por questão estratégica). Nessa loucura de coleta de dados, análise, roteirizações, novos investimentos, produção x vendas, chegou no 8º dia de trabalho e eu o vi titubear. O cara chorou, achava que iriamos perder o emprego. Não tinha como, até este dia, uma solução plausível, que reunisse mudanças mínimas e poucos investimentos.

Beltrano: Cara, tá osso...eu não tô enxergando solução. Vamos nos dar mal...
Eu: Relaxa, vai dar tudo certo! Talvez você esteja olhando pro lado errado. Você está investindo muito em roteirização, talvez o problema não seja este. Nossa demanda oscila muito, precisamos ter caminhões esperando para atender estes picos...
Beltrano: Picos?! É isso aí, picos...cara, tive uma idéia
Eu: Pois nem me conte, vou pra casa, já são 20hs...
Beltrano: Tá certo...

Picos. "O que diabos ele entendeu com picos?!" Foi isso que me perguntei indo para casa. Na realidade esse pessoal resolve às vezes as coisas num estalo. Talvez tenha acontecido isto. Esperei pelo outro dia, alguma resposta poderia surgir daquela conversa...

Cheguei no outro dia. O projeto tava concluído, na mesa, com um bilhete: "Saí as 2hs da manhã. O projeto tá feito. Vou chegar as 9hs." E estava concluído sim. Toda a folha de cálculos, fatores de segurança, tudo atendendo as conformidades que eu exigia. Fiquei besta com a solução do cara. Não era uma coisa genial, mas nitidamente advinha do talento e do trabalho duro que ele teve nos 8 dias. Tive o impulso de correr pro diretor e mostrar, ou jogar nos peito da Gestora de RH (heheheheh, se bem que ela não entenderia), mas fui ler.

Muito simples. A frota realmente era superdimensionada, já que ninguem teve tempo, ou capacidade técnica, para entender os "picos" de demanda. A oscilação poderia ser diminuida caso combinasse uma roteirização mais eficaz(calculos), estreitamento com os clientes(politica de vendas) e aumentasse o índice de utilização dos caminhões, usando a máxima capacidade permitida. Lógico. Mas o problema que no pico ia faltar caminhões. Daí surge o Talento: o nosso prazo de entrega era bem menor que a concorrência, na média, e se aumentássemos um pouco o prazo, não afetaria o nosso nível de serviço.(To omitindo os dados, questão de estrategia né). Ele calculou, e dava sim, com as margens de segurança que eu estabeleci.

Talento. Parece óbvio a solução, mas não é. Imagine você tendo mais de 40 dados e tendo que escolher um deles, que realmente modificasse algo?! Talento meus amigos, talento....

Quando ele chegou, eu disse pra ele fazer uma apresentação para Diretoria. Claro que ele já tinha feito. Marquei com o Diretor, ele mostrou tudo, pormenorizado. Houve algumas dúvidas sanadas na hora e a concepção estava completa. Ele ainda escutou um elogio do Diretor:

Cicrano: Puta que pariu, vai enxergar assim lá na casa do caralho...
Beltrano: Obrigado, Dr. Cicrano.
Cicrano: Vá, vá...quero falar com Fulano.

Eu ri muito. Mistura de alívio, satisfação, prazer, sentimento de serviço cumprido, tudo junto. E o Diretor me deu os parabens, atingiriamos 10% da redução de frota, pelo projeto conceitual. Daí escutei umas coisas do Diretor. Ele falou que ficou muito tocado com o meu gesto e com a segurança que eu tinha no Beltrano. Enfatizou o trabalho em equipe, porque Beltrano não conseguiria fazer tudo aquilo sozinho, sem dados seguros e alguém com experiência no segmento.

Provei para mim e para todos da empresa que eu estava correto, que ele era pra ser contratado, um Talento precisa ser sempre estimulado. Agora vocês imaginam a fogueira de vaidades acendida. Meu Diretor me alertou para a rebordosa. Ninguém, depois de um grande desafio como esse e um triunfo, onde Diretoria foi envolida e RH ferido( Ui!), sairá ileso. Estou aguardando.

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