quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Universidades - As Federais estão ficando para trás

Pessoal,

Tenho me surpreendido muito com o nível cada vez mais alto no quesito teoria-prática dos alunos de faculdade particulares. Trabalham comigo 2 estagiários, 3 operadores, 1 assistente e 2 supervisores que estudam, ou se formaram, nestas instituições.

Vou citar um bom exemplo de como a turma está sendo bem formada.

Um dos estagiários que trabalha comigo, que faz Administração, está lotado no setor de compras da empresa. A turma pinta e borda com estagiário, colocando-os para fazer protocolos, arquivos de documento, 5´s, estas besteiras que não contribuem em nada com a sua formação. Então, chamei-o para minha sala e, como de praxe, dei um projetinho pra ele realmente demonstrar suas qualificações.

Comprador na nossa empresa tem função híbrida: compra e controla os níveis de estoque. O Supervisor do setor - apesar de bastante competente - tem uma dificuldade tremenda em supervisionar a eficiência dos compradores na gestão dos estoques. Isto acontece até porque o Supervisor tem várias atribuições, as vezes, assumo, falta-lhe tempo. Pedi ao estagiário para bolar uma maneira de controlar os níveis de estoques essenciais para a nossa empresa, buscando uma redução responsável dos volumes de estoque e, por consequencia, dos investimentos em estoque. Dei 2 semanas para ele trazer o projeto.

Na 2ª semana, antes do prazo, ele trouxe o projeto com apresentação e tudo. Achou que ia mostrar só para mim, mas chamei o Supervisor e os Compradores. Senti que ele ficou nervoso, começou a suar e ficar pálido. Cheguei junto e disse pra ele se acalmar que ninguém ia lhe desmerecer ali dentro, por mais que o projeto esteja errado, já haverá alguma contribuição.

Dito isto, ele começou a apresentação. O Power Point dele estava meio horroroso, mas dava para entender. Falou pausadamente, tremia a voz, isso é nervosismo e eu não levo em conta. Quanto ao projeto, estava muito bom. O que foi que ele propôs?

Primeiramente ele montou o ABC dos estoques, levando em consideração os gastos relativos, dividindo-os em insumos produtivos, manutenção e diversos. Ele falou que descartara analisar os materiais diversos, onde se enquadrava, por exemplo, materiais de expediente e consumo, por não ter influência direta no processo produtivo. Então, nos mostrou a planilha e apontou em torno de 120 itens, onde através de cálculos de previsão baseado no histórico dos itens e as previsões de produção, poderiam ter seus estoques reduzidos, diminuindo algo em torno de 20 a 30mil reais de gastos/mês. Sugeriu, ainda, que fosse adotada uma planilha que ele criou para investigar outros itens que, apesar de não terem relevância financeira, deveriam ser controlados de perto a fim de garantir nenhuma pausa indevida da linha de produção.

Os compradores o arguíram, o supervisor também e eu fiquei apenas observando. Eles mal acreditavam que aquele "menino" tinha o tal conhecimento e, apesar de lotado em funções burocráticas, fizesse um projeto com êxito. Eu dei os parabéns e pedi pra ele auxiliar diretamente o Supervisor nessa nova empreitada. Mas antes, pedi pra ele ficar na sala comigo...

Eu: Parabens, muito bom!
Estagiário: Valeu...
Eu: Valeu...vem cá, quem é teu professor nessas cadeiras de logística, produção, la na tua "facu"?
Estagiário: O Cicrano de tal, tem muita experiência na área.
Eu: Conheço demais, trabalhei com ele. Eu nunca acharia que ele viraria professor um dia, ele é muito bom.
Estagiário: Pois é, ele terminou o mestrado e prefere ensinar e fazer consultoria do que voltar para as fábricas...

Provavelmente seja este o sucesso destas faculdades: colocam pessoas experientes como professores. Diferentemente ocorre nas Federais, onde a maioria dos professores não tiveram uma relação profissional na área de atuação, a não ser com pesquisas, indicadores ou consultorias, ou seja, olhando de longe como as coisas acontecem. Na minha época de estudante, o professor de logística mal sabia o que era logística de fato - lembro até que não conseguiu me explicar o porquê da logística reversa ser tão boa e as empresas não adotarem.

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