Acabei de chegar(19:58) e entrei no uol como de costume. Deparei-me com esta notícia que todo mês alguem publica, como, por exemplo, a tal Você S/A.
"Competitividade faz com que gerentes de empresas grandes trabalhem mais."
Link:
http://economia.uol.com.br/planodecarreira/ultnot/infomoney/2009/10/05/ult4229u2928.jhtm
O sujeito aponta que quanto maior o nível hierárquico dentro da empresa, maior o tempo de trabalho. De acordo com a Catho Online "presidentes e gerentes trabalham, em média, 53,2 horas por semana. Porém, se esse profissional está em uma empresa de grande porte, com faturamento acima de US$ 100 milhões por ano, esse número é ainda maior: de 55,7 horas."
Isto tudo se deve a tal competitividade tanto entre colaboradores como entre empresas, o que acaba sufocando os gestores no tocante a melhora de resultados. Ao final, o jornalista ressalta um ponto de vista do Diretor de Marketing Adriano Meirinho de que o "workaholic" não é bem visto, citando: "se ele entra muito cedo e sai muito tarde, não apenas significa que ele tem mais trabalho a fazer, mas sim que não organizou seu tempo bem, e administrou suas tarefas corretamente. O bom profissional é aquele que consegue ser produtivo no seu tempo de trabalho determinado pela empresa".
Como disse anteriormente, esta matéria é bastante recorrente no mundo corporativo. Esta coisa de competitividade move debates calorosos a cerca das horas de trabalho que um Gestor deve ter. Mas ninguém ainda abordou algo realmente importante: o desgaste humano. Sim, mais horas trabalhadas maior o desgaste do sujeito e pior a qualidade de vida. Isto sim mereceria um destaque, pois não vejo estes "Treinees" que entram agora com 25 anos, trabalhando no mesmo ritmo até os 50 anos - o que será exigido deles.
Digo isto, pois já sofri com isso!
Sai de uma Multi há alguns anos atrás por questão desta vida insana. Quando se fala em "55,7 horas de trabalho", eu tenho vontade de rir! Isto porque, nesta Multi, passei 14 meses fazendo 10h/por dia de terça a domingo, ou seja, 60hs de trabalho semanal. Aconteceu porque era férias do outro Gestor, daí assumi as duas funções. Quando chegou a Diretoria - sede em São Paulo - e me viram trabalhando, dando conta do recado, acharam por bem transferir o outro, já que eu estava correspondendo bem ao trabalho de gerenciamento. Lembro como se fosse hoje, os olhos brilhando da Diretoria ao saber que poderiam economizar uns 5mil reais por mês naquela filial, matendo o mesmo ritmo. Francamente: ô povo miserável!
Nesta época eu perdi quase 15kg - e é porque sou magro - bebia/saía somente dia de segunda - o pessoal do condomínio me chamava de "papudim", "pé inchado" e outras coisas - e dormia muito, bastante cansado. Minha mãe veio me visitar e chorou, quis me internar! (haeEHAHAEhahehaehaeheahae) Minha namorada na época, atual esposa, me deixou - com toda razão, pense aí: "Qual tempo este sujeito tinha pra ela?!" A minha vida pessoal virou um caos. Mas a minha mente estava voltada para o tal "sucesso profissional", a tal "carreira brilhante"; a vaidade me cegara completamente.
Tudo isto acabou quando eu dei uma pilôra no trabalho (é o noooovo!!).
Dia de inventário. Eu fiz 36hs de trabalho initerrupto, praticamente sem comer. Quando recebi o resultado do inventário, mostrando cento e tantos itens com valores bastante distorcidos, eu tive um ataque violento de stress. Quebrei o meu computador, esculhambei os supervisores responsáveis, joguei um copo cheio de água no chefe da empresa terceirizada, responsável pelo inventário. Chorei, me esbofetiei e desmaiei!!!( HaeheahaHAEHhae!)
Passei 2 dias no hospital, tomando tranquilizantes e outros medicamentos. Minha pressão estava em 25/12. O Médico me deu atestato de 10 dias, para terem idéia. Veio o Gerente Regional para assumir neste período e conversou comigo. Mandou eu tirar férias. Insistiram, mesmo depois da loucura que fiz, para eu ficar. Eles iriam me transferir de filial. Mas eu não quis. Para terem idéia, trabalhava tanto que quase não gastava e, depois de receber tudo da empresa, fui ao banco e vi um valor absurdo de dinheiro na conta. Tirei 2 meses de férias, no intuito de reatar com a namorada e refazer a vida.
Nestas férias refleti bastante. A minha qualidade de vida em primeiro lugar, ou o trabalho? Juro pra vocês que envelheci, em 2,5 anos de trabalho, pelo menos o triplo. O mundo era um ambiente estranho após sair de lá, porque tudo se resumia àquela filial.
Lembro que nestas férias fui primeiro para Salvador. Eu estava no pelourinho com a minha atual esposa, olhei para o chão de pedras, todo limpo, sem restos de comida, latinhas, pet´s de água e disse pra ela: "Meu Deus, aqui era imundo, olha como está hoje?! Limpo..." Ai me deitei em frente ao Museu de Jorge Amado, no chão! (HaeHaehaeheahaehhaehAEHhea) E eu deitado, olhando pro Céu, achando tudo aquilo muito lindo, como se fosse a 1ª vez que estivesse ali, como se nunca o céu estivesse naquela posição, tudo novo. Ali, naquele momento, representava - depois compreendi melhor - meu reencontro com a vida, a verdadeira. E no desenrolar das férias, percebi que o sucesso profissional era somente uma parte da vida, passar por aqui sem viver o máximo possível seria um fracasso bem maior.
Fiz a escolha mais coerente pra mim: qualidade de vida. Troquei as Multinacionais dos meus sonhos, por empresas de Médio/Grande porte. Minha ambição de assumir cargos de Diretoria continua. Ainda trabalho muito, mas não se compara a este período. Deste tempo, carrego alguns amigos, um deles se tornou Gerente Regional. Passei para ele um DVD com vídeos e fotos do batizado de meu filho. No MSN, as 22hs da noite - no horário que ele chegou depois de um período de viagens - colocou a WEBCAM pra falar comigo e ficou vendo o DVD que eu enviei. Mexeu-se na cadeira, tirou os óculos e riu bastante. Colocou novamente os óculos, ficou sério, retirou os óculos, coçou os olhos e começou a chorar...Muito emocionado, perguntei pra ele o porquê de estar chorando. Ele me disse uma coisa, que nunca esquecerei: "Velho, eu não sei o real significado de uma família e um lar feliz, igual a você!"
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